idade frenética enquanto Porto
Real surgia à vista em cima de suas três grandes
colinas.
Catelyn sabia que trezentos anos antes aquelas
elevações estavam cobertas por florestas, e só um
punhado de pescadores vivia na margem norte da
Torrente da Água Negra, onde esse rio rápido e
profundo desaguava no mar. Então, Aegon, o
Conquistador, zarpara de Pedra do Dragão. Fora ali
que seu exército desembarcara, e no topo da colina
mais alta construíra seu primeiro e rude baluarte de
madeira e terra.
Agora a cidade cobria a costa até tão longe quanto
Catelyn conseguia ver; mansões, caramanchões e
celeiros, armazéns feitos de tijolo e estalagens e
estábulos comerciais de madeira, tabernas,
cemitérios e bordéis, tudo empilhado, uns edifícios
sobre os outros. Mesmo àquela distância, conseguia
ouvir o clamor do mercado de peixe. Entre os
edifícios, estendiam-se estradas largas debruadas de
árvores, sinuosas ruas vazias e vielas tão estreitas
que dois homens não poderiam nelas caminhar lado a
lado. A colina de Visenya estava coroada pelo
Grande Septo de Baelor, com suas sete torres de
cristal. Do outro lado da cidade, na colina de
Rhaenys, erguiam-se os muros enegrecidos do Poço
dos Dragões, com sua enorme cúpula caída em ruína,
as portas de bronze fechadas havia já um século. A
Rua das Irmãs corria entre os dois edifícios, reta
como uma seta. As muralhas da cidade erguiam-se a
distância, altas e fortes.
Uma centena de desembarcadouros cobria a margem
da cidade, e o porto estava repleto de navios. Barcos
de pesca de águas profundas e correios do rio
chegavam e partiam, barqueiros remavam de um
lado para o outro na Torrente da Água Negra, galés
comerciais descarregavam produtos vindos de
Bravos, Pentos e Lys. Catelyn espiou a ornamentada
barcaça da rainha, amarrada ao lado de um gordo
baleeiro vindo do Porto de Ibben, com o casco
enegrecido de piche, enquanto a montante uma dúzia
de esbeltos navios de guerra dourados repousava em
suas docas, com as velas enroladas e os cruéis
esporões de ferro a afagar a água,
E acima de tudo, lançando um olhar carrancudo da
grande colina de Aegon, estava a Fortaleza
Vermelha, sete enormes torres cilíndricas coroadas
por baluartes de ferro, um imenso e sombrio
contraforte, salões abobadados e pontes cobertas,
casernas, masmorras e celeiros, maciças muralhas de
barragem cravejadas de guaritas para arqueiros,
tudo construído de pedra vermelha-clara, Aegon, o
Conquistador, ordenara sua construção. Seu filho,
Maegor, o Cruel, a completara, E depois exigira a
cabeça de todos os pedreiros, carpinteiros e
construtores que nela trabalharam. Jurara que só o
sangue do dragão podia conhecer os segredos da
fortaleza que os Senhores do Dragão tinham
construído.
E, no entanto, os estandartes que agora esvoaçavam
em suas ameias eram dourados, não negros, e onde o
dragão de três cabeças antes exalara fogo, agora
curveteava o veado coroado da Casa Baratheon.
Um navio de grandes mastros das Ilhas do Verão
estava saindo do porto com suas velas brancas
enormes. O Dançarino da Tempestade passou por ele,
aproximando-se firmemente da costa.
- Minha senhora - disse Sor Rodrik -, enquanto
estive acamado, planejei a melhor forma de
proceder. Não deve entrar no castelo. Eu irei em
vosso lugar e trarei Sor Aron até algum lugar seguro.
Ela estudou o velho cavaleiro enquanto a galé se
aproximava do cais. Moreo gritava no valiriano
vulgar das Cidades Livres.
- Correrá tantos riscos como eu.
Sor Rodrik sorriu.
- Julgo que não. Há pouco olhei meu reflexo na
água e quase não me reconheci a mim mesmo. Minha
mãe foi a última pessoa a me ver sem suíças, e está
morta há quarenta anos. Acredito que estou
suficientemente seguro, minha senhora.
Moreo berrou uma ordem. Como se fossem um único,
sessenta remos ergueram-se do rio, depois inverteram
a rotação, e caíram. A galé perdeu velocidade. Outro
grito. Os remos deslizaram para dentro do casco. No
momento em que o navio esbarrava na doca,
marinheiros tyroshis saltaram para terra a fim de
amarrá-lo. Moreo aproximou-se em grande azáfama,
todo sorrisos.
- Porto Real, minha senhora, tal como havia
ordenado, e nunca nenhum navio fez viagem mais
rápida e segura. Necessitará de assistência no
transporte de vossas coisas para o castelo?
- Não vamos para o castelo. Talvez me possa sugerir
uma estalagem, um lugar limpo e confortável, e não
muito longe do rio.
O tyroshi passou os dedos pela barba verde e
bifurcada.
- Com certeza. Conheço vários estabelecimentos que
podem lhe convir. Mas primeiro, se me permite a
ousadia, há o assunto da segunda parte do
pagamento que acordamos. E, bem entendido, a
prata extra que teve a bondade de prometer.
Sessenta veados, julgo que era esse o montante.
- Para os remadores - lembrou-lhe Catelyn.
- Ah, com certeza - disse Moreo. - Embora eu talvez
deva guardá-los para eles até regressarmos a Tyrosh.
Para o bem de suas esposas e filhos. Se a prata lhes
for dada aqui, minha senhora, irão perdê-la para os
dados ou gastá-la por completo numa noite de
prazer.
- H